O psiquiatra Joseba Achotegui, da Universidade de Barcelona, formulou, a partir de duas décadas de atendimento à saúde mental de imigrantes, o conceito de síndrome de Ulisses para designar um padrão de sofrimento vinculado ao luto migratório. O termo não constitui diagnóstico oficial e não consta na CID-11 nem no DSM-5-TR. Opera como chave de leitura clínica de um luto elaborado de forma fragmentada, sem rito e sem prazo definido, próprio de quem migra para recomeçar em outro contexto. Achotegui delimitou sete perdas que se sobrepõem na migração: a família e os amigos, a língua materna, a cultura cotidiana, a terra e a paisagem, o grupo de pertencimento étnico, o estatuto social e a integridade física exposta pelo próprio processo migratório.
Fenomenologia clínica do luto migratório e da síndrome de Ulisses
As sete perdas raramente incidem de forma simultânea, e se alternam, com frequência anos após a mudança, quando o entusiasmo inicial cede à rotina de integração. Nos primeiros meses, a urgência prática da chegada, com registro administrativo, seguro-saúde e curso de idioma, mobiliza o recurso atencional e adia a percepção do luto. A apresentação clínica emerge com a estabilização da rotina, no segundo ou terceiro inverno, sob a forma de cansaço cumulativo sem causa evidente: cefaleia tensional, sono não reparador, irritabilidade e hipervigilância.
Achotegui designou o núcleo clínico do quadro como estresse crônico e múltiplo do imigrante, instalado quando os estressores da migração, entre eles a solidão, a luta pela sobrevivência financeira e a ausência de rede de suporte social, excedem a capacidade de processamento do sujeito. A natureza de estresse, e não de depressão primária, orienta o tipo de cuidado indicado.
Repercussões psíquicas e diagnóstico diferencial
O luto migratório permanece mal delimitado na nosologia. Uma revisão sistemática publicada em 2024 na Frontiers in Psychiatry reuniu os estudos disponíveis e constatou a confusão frequente do fenômeno com quadros depressivos ou com estresse de adaptação, e defendeu seu reconhecimento como processo de luto, com cronologia e tarefas psíquicas próprias. A psicóloga Pauline Boss, da Universidade de Minnesota, acrescentou o conceito de luto ambíguo, perda de um vínculo que persiste em existência sem a forma anterior, aplicável à interrupção do convívio cotidiano com familiares que permanecem vivos no país de origem, situação em que a ausência de corpo e de rito dificulta o registro psíquico do término.
O diagnóstico diferencial separa o luto migratório, de gatilho identificável na perda de vínculos e referências, do episódio depressivo, de possível instalação sem causa externa evidente, com coexistência frequente entre os quadros. A sobreposição com a morte concreta a distância, descrita no texto sobre o luto sem despedida, foi observada em estudo publicado na Family Process, que documentou a influência do luto migratório prévio sobre a reação à morte comunicada por telefone.
Manejo clínico e protocolos baseados em evidências
O manejo psicoterapêutico não objetiva a supressão da saudade nem a recuperação do que ficou. A intervenção inicia pela nomeação e pela discriminação das camadas do luto: a saudade da alimentação, a falta da língua materna, o vazio do contato familiar e a exaustão da tradução cotidiana da própria vida. Esse procedimento de separação de camadas, próprio da terapia pós-luto, atribui contorno preciso à dor difusa e orienta a intervenção por perda específica.
A mensuração inicial do estado emocional, descrita no texto sobre avaliação da saúde emocional, apoia a identificação do momento em que o cansaço acumulado excede a capacidade de absorção da rotina. O tratamento baseado em evidências aplica-se quando o quadro preenche critérios de transtorno de adaptação, de episódio depressivo ou de luto prolongado.
Eficácia da telepsicologia transcultural na remissão de sintomas
A telepsicologia com profissional habilitado no Brasil conduz o processo na língua materna, o que dispensa a tradução da própria dor e preserva a precisão do relato sobre referências culturais e vínculos de origem. A literatura em psicoterapia mediada por tecnologia documenta desfechos comparáveis aos do atendimento presencial, atribuídos à consistência da aliança terapêutica e à adesão às tarefas entre sessões, variáveis particularmente relevantes em um quadro cujo núcleo é a ausência de rede de suporte social.
A concordância cultural favorece o reconhecimento das sete perdas sem necessidade de explicação de cada referência. A Estação Terapia reúne psicólogos com CRP ativo, submetidos a curadoria clínica rigorosa para o atendimento de brasileiros no exterior e orientados por intervenções baseadas em evidências.
Diretrizes frequentes sobre o manejo clínico do luto migratório e da síndrome de UlissesDefinição da síndrome de Ulisses
A síndrome de Ulisses é a denominação atribuída por Joseba Achotegui ao estresse crônico e múltiplo do imigrante que acumula perdas, solidão e ausência de rede de suporte social sem perspectiva de alívio próximo. Não constitui diagnóstico oficial, e opera como chave clínica para reconhecer o sofrimento que a rotina de adaptação dissimula como cansaço.
Os sete lutos da migração descritos por Achotegui
As sete perdas correspondem à família e aos amigos, à língua materna, à cultura cotidiana, à terra e à paisagem, ao grupo étnico de origem, ao estatuto social anterior à mudança e à integridade física no processo migratório. Raramente incidem de forma simultânea, e a identificação da perda predominante orienta o cuidado.
Distinção entre luto migratório e episódio depressivo
O luto migratório apresenta gatilho identificável na perda concreta de vínculos e referências, ao passo que a depressão pode surgir sem causa externa evidente. Os dois quadros coexistem com frequência, e a avaliação profissional diferencia o processo de luto do quadro que requer tratamento clínico dirigido.
Manejo da síndrome de Ulisses em formato remoto
O quadro decorre da ausência de rede de suporte social e da dificuldade de nomear a própria dor em idioma não nativo. A telepsicologia em português apresenta bom desempenho, dado que restabelece a escuta na língua em que o paciente sente e pensa, sem a barreira adicional da tradução emocional a cada sessão.
Renan Puléo Barela Psicólogo · CRP 06/147711 Psicólogo clínico e palestrante, pós-graduado em terapia do esquema pelo CETCC e em neurociência pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Integra a pesquisa A next generation of the schema therapy model of personality pathology, que avança o modelo de Jeffrey Young sobre esquemas e patologia de personalidade. Acessar a pesquisa no PLOS ONE →
Quando o sofrimento psíquico se torna intenso demais ou surgem pensamentos de se ferir, buscar ajuda não pode esperar. O CVV atende brasileiros no exterior 24 horas por dia através do chat online em cvv.org.br ou via Skype (usuário: cvv_oficial).





