O sentimento de não pertencer plenamente a nenhum dos dois contextos culturais constitui experiência recorrente na população migrante, com repercussão documentada sobre o bem-estar psicológico. A literatura sobre identidade bicultural descreve o grau de integração entre as identidades culturais como variável central: quando as duas culturas operam como compartimentos com baixa comunicação entre si, em vez de compor uma síntese, o sofrimento tende a aumentar. Um estudo publicado no periódico Psychological Assessment, conduzido por pesquisadoras da Califórnia e da Catalunha, validou instrumento para mensurar essa variação e associou a compatibilidade percebida entre as identidades culturais ao bem-estar de quem vive entre dois países.
Fenomenologia clínica do desenraizamento e da identidade bicultural
A experiência do desenraizamento manifesta-se em situações cotidianas de ambos os contextos: a perda de ressonância de referências antigas no país de origem e a percepção de distância sutil no país de destino. Um estudo qualitativo com adolescentes imigrantes na Suécia, publicado no International Journal of Qualitative Studies on Health and Well-being, designou essa demanda como anseio por pertencimento e situou o pertencer, ou não pertencer, como eixo central da adaptação, moldado por exclusão social e por trajetórias de inclusão.
A vivência exige esforço adaptativo contínuo, com frequência imperceptível a observadores externos, o que amplia a sensação de isolamento do sujeito. A ausência de reconhecimento pleno em qualquer dos dois contextos mantém a demanda de pertencimento sem resolução estável.
Repercussões psíquicas e diagnóstico diferencial
A confirmação da identidade depende, em parte, do reconhecimento por terceiros. Pesquisadoras da Rutgers University e da Duke University, em estudo publicado no Personality and Social Psychology Bulletin, demonstraram que o questionamento da identidade por outros reduz a sensação de pertencimento social, queda que explica parte do aumento de sintomas depressivos e de estresse. O modelo de aculturação de John Berry descreve quatro estratégias diante da nova cultura, integração, assimilação, separação e marginalização, e associa a marginalização, definida pela ausência de vínculo com ambas as culturas, ao maior sofrimento psicológico, com predomínio nos primeiros anos de residência.
A experiência integra o processo de adaptação e não configura, isoladamente, transtorno, o que exige diferenciação em relação ao episódio depressivo e ao isolamento clínico, tema desenvolvido no texto sobre a solidão do imigrante, e acompanha as fases descritas na curva em U da adaptação.
Manejo clínico e protocolos baseados em evidências
A evidência indica a integração das duas identidades como fator de proteção. Um estudo com jovens adultos somalis realocados na América do Norte, publicado na Transcultural Psychiatry, associou a manutenção de pertencimento simultâneo às culturas de origem e de destino à redução de ansiedade, depressão e sintomas de estresse pós-traumático, ainda diante de discriminação. Um levantamento com migrantes humanitários na Austrália, publicado no BMJ Open, situou a dimensão de identidade e pertencimento entre os fatores mais associados à saúde física e mental autoavaliada.
O manejo psicoterapêutico apoia a construção de uma narrativa identitária integrada, na qual o pertencimento não se estabelece como exclusivo, e a coexistência de referências de mais de uma cultura deixa de ser processada como deslealdade. Esse trabalho constitui eixo da terapia de autoconhecimento, e a intervenção baseada em evidências aplica-se quando o quadro evolui para episódio depressivo ou transtorno de adaptação.
Eficácia da telepsicologia transcultural na remissão de sintomas
A telepsicologia com profissional habilitado no Brasil conduz o processo na língua materna e reconhece as referências culturais de ambos os contextos, o que dispensa a tradução da própria história antes de sua narração. A literatura em psicoterapia mediada por tecnologia documenta desfechos comparáveis aos do atendimento presencial, atribuídos à consistência da aliança terapêutica e à adesão às tarefas entre sessões.
A concordância cultural favorece a nomeação precisa de sentimentos ligados à identidade em transição, cuja expressão a segunda língua tende a reduzir. A Estação Terapia reúne psicólogos com CRP ativo, submetidos a curadoria clínica rigorosa para o atendimento de brasileiros no exterior e orientados por intervenções baseadas em evidências.
Diretrizes frequentes sobre o manejo clínico do sentimento de não pertencer no imigranteOrigem do sentimento de não pertencer na experiência migratória
A identidade se constitui em contato direto com uma cultura, uma língua e uma rede de relações estáveis. Na migração, esse contato se divide entre dois contextos, cada qual reconhecendo parte do sujeito. O sentimento de não pertencer decorre dessa divisão, e não de defeito pessoal ou de insuficiência de esforço adaptativo.
Persistência da saudade do país de origem após anos de residência
A saudade persistente ocorre inclusive entre indivíduos com domínio do idioma e vida estável no país de destino, e reflete vínculo com a própria origem, sem indicar falha de adaptação. A avaliação clínica se justifica quando essa saudade impede a construção de vínculos novos e compromete o funcionamento cotidiano.
Critério para distinguir desenraizamento de quadro clínico
O desconforto identitário integra o processo de adaptação e não configura, isoladamente, transtorno. O sinal de alerta surge quando se associa a isolamento social contínuo, humor deprimido persistente e dificuldade de relação com ambos os grupos. A persistência por meses, com prejuízo do trabalho, do sono e dos vínculos, indica avaliação profissional.
Relevância do atendimento em português sobre identidade e pertencimento
As questões de identidade mobilizam memórias, expressões e referências culturais cuja precisão a segunda língua reduz. A escuta em português, por profissional que reconhece o contexto de origem e o do país de destino, permite a nomeação exata de sentimentos que, em outro idioma, permanecem parciais, o que aumenta a acurácia do trabalho clínico.
Renan Puléo Barela Psicólogo · CRP 06/147711 Psicólogo clínico e palestrante, pós-graduado em terapia do esquema pelo CETCC e em neurociência pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Integra a pesquisa A next generation of the schema therapy model of personality pathology, que avança o modelo de Jeffrey Young sobre esquemas e patologia de personalidade. Acessar a pesquisa no PLOS ONE →
Quando o sofrimento psíquico se torna intenso demais ou surgem pensamentos de se ferir, buscar ajuda não pode esperar. O CVV atende brasileiros no exterior 24 horas por dia através do chat online em cvv.org.br ou via Skype (usuário: cvv_oficial).





