Quando alguém diz que quer morrer, a resposta cabe às próximas horas. O primeiro passo é escutar sem julgar e perguntar de forma direta se a pessoa pensa em se matar. Convém não deixá-la sozinha e acionar ajuda profissional: o CVV pelo 188, o CAPS da região ou, diante de risco iminente, o SAMU 192 e o pronto-socorro.
A Classificação Internacional de Doenças registra a ideação suicida sob o código MB26.A e a classifica como sintoma que pede avaliação, acompanhamento e tratamento.
Uma revisão publicada no New England Journal of Medicine em 2020, assinada por Seena Fazel, da Universidade de Oxford, e Bo Runeson, do Instituto Karolinska, sintetizou a evidência sobre avaliação e manejo do risco suicida e destacou dois pontos: a maioria das pessoas que morre por suicídio teve contato com algum serviço de saúde no ano anterior, e o período que segue a uma crise ou a uma alta hospitalar concentra o risco mais elevado. A resposta imediata de um familiar ou amigo tem peso real, e o encaminhamento profissional é o que dá continuidade a ela.
O que a frase revela e o que ela não revela
Dizer que quer morrer raramente equivale a dizer que vai se matar. A ideação suicida existe num espectro: do desejo passivo de não acordar até um plano específico com data. Essa distância decide se as próximas horas pedem uma conversa longa ou uma ida ao pronto-socorro. Quem escuta não faz essa avaliação sozinho, mas precisa reunir informação suficiente para saber a quem ligar.
Há sinais que a literatura descreve como marcadores de risco iminente: um plano detalhado; acesso ao que a pessoa descreveu como meio; despedidas explícitas ou disfarçadas, como a doação repentina de objetos de valor afetivo; uma calma súbita depois de dias de agitação, que famílias interpretam como melhora e clínicos leem como decisão tomada; intoxicação por álcool ou outras substâncias no momento da fala; e tentativa anterior, sobretudo se recente. Fazel e Runeson reforçam que nenhum instrumento de triagem substitui a conversa direta.
Perguntar diretamente e escutar sem corrigir
O medo mais comum de quem ouve é o de que perguntar “plantará a ideia”. A evidência aponta na direção contrária. Uma revisão conduzida por Dazzi e colegas do King’s College London, com Simon Wessely e Nicola Fear entre os autores, publicada em Psychological Medicine em 2014, não encontrou nenhum estudo em que perguntar sobre suicídio tenha aumentado a ideação; em populações que buscavam tratamento, a conversa aberta associou-se a redução do sofrimento. O tema tem artigo próprio: perguntar sobre suicídio aumenta o risco.
A pergunta funciona melhor quando é clara. “Você está pensando em se matar?” é preferível a rodeios como “você não está pensando em fazer nenhuma bobagem, né?”, que embutem a resposta esperada e comunicam que o tema incomoda. Depois da pergunta, o silêncio. A pessoa pode chorar, negar e voltar atrás, falar sem parar. O trabalho de quem escuta é permanecer presente sem corrigir, sem argumentar e sem oferecer soluções rápidas.
Algumas frases ditas com a melhor das intenções fazem mal. “Pensa nos seus filhos” acrescenta culpa a quem já se sente um fardo. “Tem gente em situação bem pior” invalida a dor e encerra o diálogo. “Isso é egoísmo” transforma um sintoma em acusação moral. Frases simples ajudam mais: “Obrigado por me contar.” “Eu estou aqui.” “A gente vai procurar ajuda juntos.” Nesse momento, a presença conta mais do que qualquer argumento bem construído.
Quando a pessoa está do outro lado do oceano, situação comum em famílias brasileiras espalhadas entre Lisboa, Londres e Boston, a escuta acontece por vídeo. As mesmas regras valem: ficar na chamada, perguntar quem está fisicamente por perto e anotar o endereço. Na Europa o número de emergência é o 112; nos Estados Unidos, a emergência é o 911 e a linha de crise em saúde mental é o 988; e o chat do CVV em cvv.org.br atende brasileiros em qualquer fuso.
O que fazer na prática nas próximas horas
A primeira medida é não deixar a pessoa sozinha. Se ela mora só, alguém dorme lá ou ela dorme na casa de alguém; se isso for impossível, combina-se contato com hora marcada e alguém de confiança é avisado. A segunda medida é reduzir, de forma discreta e sem confronto, o acesso a qualquer coisa que a pessoa tenha descrito como meio. A Organização Mundial da Saúde trata a restrição de acesso a meios como uma das intervenções de maior impacto populacional, e o princípio vale dentro de uma casa: distância e tempo entre o impulso e o ato salvam vidas. Este texto não descreve meios de propósito.
A terceira medida é acionar ajuda profissional, e a escolha depende do que a conversa revelou. Se há plano, acesso ao meio, intoxicação ou tentativa em curso, trata-se de emergência médica: SAMU 192 ou o pronto-socorro mais próximo, UPA ou hospital. Se não há risco iminente, mas a ideação persiste, o Centro de Atenção Psicossocial da região, o CAPS, atende sem encaminhamento e faz acolhimento de crise. O CVV, pelo 188 e pelo chat, atende tanto quem sofre quanto quem está ao lado e não sabe o que fazer, 24 horas, de graça e em sigilo.
A lei brasileira dá suporte a essas ações. A Lei 13.819/2019 instituiu a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio e previu, no artigo 6º, a notificação compulsória dos casos de violência autoprovocada, tentativas incluídas, o que torna o caso visível ao sistema de saúde e abre caminho para acompanhamento. A Lei 10.216/2001, em seu artigo 6º, define as três modalidades de internação psiquiátrica: voluntária, com consentimento da pessoa; involuntária, a pedido de terceiro e sem o consentimento dela, sempre mediante laudo médico circunstanciado; e compulsória, determinada pela Justiça. O artigo 8º exige que a internação involuntária seja comunicada ao Ministério Público em até 72 horas. O princípio é claro: a internação é o último recurso, indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostram insuficientes, e nunca uma punição.
Levar ao pronto-socorro assusta. Vale dizer com honestidade o que vai acontecer: avaliação por um plantonista, que pode chamar um psiquiatra, e decisão sobre observação, alta ou internação. Acompanhar a espera é parte do cuidado.
O que acontece depois da crise
Passado o pico, começa a etapa que a literatura considera decisiva. Uma meta-análise conduzida por Chani Nuij, da Vrije Universiteit Amsterdam, publicada no British Journal of Psychiatry em 2021, reuniu seis estudos com 3.536 participantes e encontrou que intervenções do tipo plano de segurança reduziram o risco relativo de comportamento suicida em cerca de 43% frente ao controle, com número necessário para tratar de 16. O mesmo estudo não encontrou efeito sobre a ideação em si: o plano protege contra o ato enquanto a psicoterapia trabalha o pensamento.
O plano de segurança é um documento curto, escrito com um profissional, que lista sinais pessoais de alerta, estratégias já usadas para atravessar momentos ruins, telefones de quem pode ser chamado, serviços de emergência e medidas para reduzir riscos no ambiente. Quem ajudou na crise pode pedir para constar nele.
O acompanhamento psicoterapêutico dá continuidade ao cuidado nas semanas seguintes. Terapias com evidência específica para ideação suicida são discutidas em terapia para quem pensa em morrer. O contexto mais amplo da prevenção no Brasil, com a origem da campanha e o que a lei estabelece, está em Setembro Amarelo: origem, lei e o que a campanha pede.
Eficácia da telepsicologia na remissão de sintomas
A psicoterapia por videochamada dispõe de evidência de não inferioridade em relação ao formato presencial para transtornos depressivos e ansiosos, e a Resolução CFP 09/2024 regulamenta o atendimento psicológico online no Brasil. No risco suicida, porém, há um limite: risco iminente exige serviço presencial. Nenhuma sessão online substitui o SAMU 192, a UPA ou o CAPS quando há plano, acesso a meio ou tentativa em curso. O atendimento remoto faz bem o depois: acompanhamento contínuo, revisão do plano de segurança, tratamento do quadro de base e suporte a quem cuida.
A Estação Terapia reúne psicólogos com CRP ativo, submetidos a curadoria clínica rigorosa e orientados por intervenções baseadas em evidências, com atendimento em Terapia Cognitivo-Comportamental, Terapia de Aceitação e Compromisso e Terapia do Esquema, em sessões de 50 minutos. Familiares e amigos que atravessaram uma crise ao lado de alguém também precisam processar o que viveram. Para quem não sabe por onde começar, a ferramenta Conexão Certa indica o profissional mais alinhado ao caso a partir de algumas perguntas.
Orientações práticas para quem escuta alguém dizer que quer morrer
O que fazer quando alguém diz que quer morrer
Ficar, escutar sem julgar e perguntar de forma direta se a pessoa pensa em se matar. Não deixá-la sozinha nas horas seguintes e reduzir discretamente o acesso a qualquer coisa que ela tenha descrito como meio. Acionar ajuda profissional: CVV 188, CAPS da região ou, diante de risco iminente, SAMU 192 e pronto-socorro.
Como ajudar um amigo com pensamentos suicidas
Manter contato frequente e previsível, com horários combinados, e avisar alguém de confiança da família ou do círculo próximo. Incentivar a avaliação com psicólogo ou psiquiatra, oferecer companhia à consulta e pedir para constar no plano de segurança que o profissional construir. Cuidar também de si, porque o cuidado prolongado desgasta quem o oferece.
O que dizer para quem quer se matar
Frases curtas e verdadeiras ajudam mais do que argumentos: “Obrigado por me contar”, “Eu estou aqui”, “A gente vai procurar ajuda juntos”. Evitar apelos à culpa, comparações com quem sofre mais, acusações de egoísmo ou promessas de que tudo vai melhorar. Perguntar diretamente sobre a intenção de morrer, sem rodeios, e tolerar o silêncio depois.
Quando levar ao pronto-socorro
Plano concreto, acesso ao que a pessoa descreveu como meio, tentativa em curso ou recente, intoxicação por álcool ou substâncias e agitação intensa configuram emergência médica. Nesses casos, SAMU 192 ou o pronto-socorro mais próximo, UPA ou hospital, sem esperar. Ideação persistente sem esses sinais permite buscar o CAPS, que atende sem encaminhamento.
Quando o sofrimento psíquico se torna intenso demais ou surgem pensamentos de se ferir, buscar ajuda não pode esperar. O CVV atende de graça e em sigilo pelo telefone 188, no Brasil, 24 horas por dia, e pelo chat em cvv.org.br, de qualquer país, nos horários informados no site. Fora do Brasil, o 112 atende emergências na Europa e o 988 é a linha de crise nos Estados Unidos.





