O Setembro Amarelo nasceu de um gesto: o laço amarelo veio do Yellow Ribbon norte-americano, e no Brasil a campanha foi lançada em 2015 pelo CVV, pelo CFM e pela ABP. As Leis 15.199/2025 e 13.819/2019 lhe deram amparo legal, e a prevenção que funciona combina políticas públicas e cuidado clínico.
A cor remonta a Mike Emme, adolescente que morreu por suicídio no Colorado em 1994 e havia pintado de amarelo um Ford Mustang; no velório, amigos distribuíram laços da mesma cor. No Brasil, a Associação Brasileira de Psiquiatria registra o início em 2014, com o Conselho Federal de Medicina.
A ideação suicida aparece na CID-11 sob o código MB26.A, classificada como sintoma. A distinção desloca o foco do julgamento moral para a clínica: quem pensa em morrer apresenta um sinal que pede avaliação, como dor torácica pede eletrocardiograma. O que segue reconstrói a origem da campanha, o que a lei brasileira passou a exigir a partir de 2025 e o que a literatura científica considera eficaz, para além do laço na lapela.
De um Mustang amarelo ao laço na lapela: a origem da campanha
A história começa fora do Brasil. Em 1994, no Colorado, um adolescente de 17 anos chamado Mike Emme morreu por suicídio. Ele havia restaurado um Ford Mustang 1968 e o pintara de amarelo. No velório, familiares e amigos distribuíram cartões com laços da mesma cor e uma mensagem breve: quem precisar de ajuda deve pedir. Daquele gesto doméstico nasceu o Yellow Ribbon Suicide Prevention Program, que difundiu o laço amarelo como símbolo internacional da prevenção.
Em 2003, a International Association for Suicide Prevention, em parceria com a OMS, instituiu o 10 de setembro como Dia Mundial de Prevenção do Suicídio.
No Brasil, a Associação Brasileira de Psiquiatria registra o início da campanha em 2014, em parceria com o Conselho Federal de Medicina. O nome Setembro Amarelo e a escala nacional vieram em 2015, quando o Centro de Valorização da Vida, o CFM e a ABP lançaram a iniciativa em conjunto, com a proposta de estender ao mês inteiro o alcance do 10 de setembro. A iluminação de monumentos nas primeiras edições se espalhou para prefeituras de todo o país e para consulados e associações de brasileiros no exterior.
O que a campanha pede e o que a lei estabelece
Por dez anos a campanha existiu sem amparo legal específico. Isso mudou em 8 de setembro de 2025, com a sanção da Lei 15.199/2025, em vigor desde a publicação. O texto institui no art. 1º a campanha Setembro Amarelo, a ser realizada anualmente no mês de setembro, e no art. 2º prevê atividades de conscientização sobre saúde mental ao longo dela. O art. 3º fixa duas datas: 10 de setembro como Dia Nacional de Prevenção do Suicídio, e 17 de setembro como Dia Nacional de Prevenção da Automutilação.
Os artigos 6º e 7º autorizam o poder público e entidades civis a promover atividades ao longo do mês, com objetivos expressos: informar sobre fatores de risco, reduzir o estigma, promover empatia e estimular a busca por ajuda profissional. Palestras, eventos escolares e a iluminação de prédios em amarelo passam a ter respaldo normativo, independente da agenda de governos.
A lei de 2025 se apoia em um marco anterior. A Lei 13.819/2019 instituiu a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio, a ser implementada pela União em cooperação com estados e municípios. O art. 6º tornou compulsória a notificação de casos suspeitos ou confirmados de violência autoprovocada, o que permite ao Ministério da Saúde mapear onde o risco se concentra.
Nos casos de risco iminente, a Lei 10.216/2001 prevê no art. 6º três modalidades de internação: voluntária, com consentimento da pessoa; involuntária, a pedido de terceiro e com laudo médico; e compulsória, por determinação judicial. A internação é exceção, cabível apenas quando os recursos extra-hospitalares se mostram insuficientes.
O que a evidência mostra que funciona
Iluminar prédios cria pauta. Reduzir mortes exige medidas específicas. Uma revisão sistemática de dez anos conduzida por Gil Zalsman, com Keith Hawton e Danuta Wasserman entre os coautores, publicada na Lancet Psychiatry em 2016, avaliou 1.797 estudos. A evidência mais sólida recaiu sobre a restrição de acesso a meios letais. Programas escolares de conscientização reduziram tentativas em cerca de metade. O tratamento eficaz da depressão, farmacológico e psicológico, apareceu como pilar central. Treinamento de porteiros, educação de médicos e linhas de apoio mostraram resultados promissores, ainda carentes de ensaios robustos. A conclusão foi sóbria: nenhuma estratégia isolada se sobressai, e a combinação de medidas individuais e populacionais é o caminho com mais chance de funcionar.
Uma atualização publicada por J. John Mann e colaboradores no American Journal of Psychiatry em 2021 reforçou pontos específicos. Treinar médicos de atenção primária para reconhecer e tratar depressão previne mortes. Contato ativo com pacientes após alta hospitalar ou após uma crise reduz novas tentativas. Terapia Cognitivo-Comportamental e Terapia Comportamental Dialética previnem comportamento suicida.
A OMS sintetizou essas evidências na estratégia LIVE LIFE, publicada em 2021 como guia para governos. O documento elege quatro intervenções prioritárias: limitar o acesso a meios, trabalhar com a mídia por uma cobertura responsável, desenvolver habilidades socioemocionais em adolescentes e identificar cedo, avaliar, tratar e acompanhar qualquer pessoa afetada por comportamento suicida. Seis pilares orientam a aplicação, da análise da situação local à vigilância epidemiológica, passando por financiamento e capacitação de profissionais. A lei brasileira de 2019, anterior ao guia, já adotava parte desse desenho, como a notificação compulsória.
O que cada pessoa pode fazer
O primeiro ponto é abandonar um medo antigo: perguntar diretamente a alguém se ele pensa em morrer não aumenta o risco, como a literatura demonstra há mais de uma década, tema analisado em perguntar sobre suicídio aumenta o risco: o que se sabe.
O segundo ponto é saber o que fazer nas horas seguintes a uma revelação. Quem ouve de um amigo, filho ou colega que ele deseja morrer precisa de um roteiro simples, detalhado em alguém disse que quer morrer: o que fazer nas próximas horas. Em síntese: ficar junto, reduzir o acesso a qualquer meio de se ferir, acionar um serviço de saúde e permanecer com a pessoa até o atendimento profissional. No Brasil, o CVV atende pelo 188 e pelo chat em cvv.org.br, o SAMU responde no 192, e os CAPS e as UPAs recebem sem agendamento. Na Europa, o número de emergência é o 112; nos Estados Unidos, o 988.
O terceiro ponto diz respeito a quem fica. O luto após uma morte por suicídio tem contornos próprios, marcados por culpa e silêncio social, e pode evoluir para o transtorno de luto prolongado, código 6B42 da CID-11. O artigo luto por suicídio: o que muda para quem fica aprofunda esse cenário, inclusive para famílias separadas por fronteiras. Por fim, a campanha pede que quem pensa em morrer procure tratamento adequado; as abordagens com evidência específica para ideação suicida são descritas em terapia para quem pensa em morrer: o que funciona.
Eficácia da telepsicologia na remissão de sintomas
A psicoterapia por videochamada demonstrou, em revisões sistemáticas e ensaios controlados, resultados equivalentes ao formato presencial no tratamento da depressão e da ansiedade. Para brasileiros no exterior, o atendimento em português, com profissional que entende o contexto cultural, remove uma barreira que o sistema de saúde local raramente vence. A Resolução CFP 09/2024 regulamenta a modalidade no Brasil.
O formato tem limites claros. Risco iminente de morte exige serviço presencial: SAMU 192, UPA, pronto-socorro ou CAPS. A telepsicologia entra antes da crise, no tratamento da depressão que a antecede, e depois dela, no acompanhamento que a evidência aponta como decisivo. A Estação Terapia reúne psicólogos com CRP ativo, selecionados por curadoria clínica, com atendimento em Terapia Cognitivo-Comportamental, Terapia de Aceitação e Compromisso e Terapia do Esquema, em sessões de 50 minutos. Quem procura um profissional alinhado ao próprio caso pode começar pela ferramenta Conexão Certa.
O que leitores atentos querem saber sobre a campanha e a lei
Por que setembro amarelo foi o mês e a cor escolhidos
Setembro foi escolhido porque o dia 10 é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, instituído em 2003 pela International Association for Suicide Prevention com a OMS. O amarelo remete ao Mustang restaurado por Mike Emme, jovem norte-americano que morreu por suicídio em 1994, e aos laços dessa cor distribuídos no velório.
Quem criou o setembro amarelo no Brasil
A Associação Brasileira de Psiquiatria registra o início da campanha em 2014, em parceria com o Conselho Federal de Medicina. Em 2015, o Centro de Valorização da Vida, o CFM e a ABP lançaram em conjunto o Setembro Amarelo em escala nacional, ampliando para o mês inteiro a mobilização do dia 10 de setembro.
O CVV existe desde 1962 e atende hoje pelo 188 e pelo chat em cvv.org.br, de graça e em sigilo.
Setembro amarelo virou lei em 2025
Sim. A Lei 15.199, sancionada em 8 de setembro de 2025, institui a campanha Setembro Amarelo como ação anual, fixa o dia 10 de setembro como Dia Nacional de Prevenção do Suicídio e o dia 17 como Dia Nacional de Prevenção da Automutilação, e autoriza o poder público a promover palestras, iluminação de prédios e atividades escolares.
A norma complementa a Lei 13.819/2019, que criou a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio.
O que fazer no Setembro Amarelo além de vestir amarelo
A evidência aponta para gestos concretos: perguntar diretamente a quem parece em sofrimento se pensa em morrer, ouvir sem julgar, guardar o número 188 do CVV, acompanhar a pessoa até um serviço de saúde quando houver risco e procurar tratamento para a própria depressão, já que tratá-la é uma das medidas preventivas mais bem documentadas.
Quando o sofrimento psíquico se torna intenso demais ou surgem pensamentos de se ferir, buscar ajuda não pode esperar. O CVV atende de graça e em sigilo pelo telefone 188, no Brasil, 24 horas por dia, e pelo chat em cvv.org.br, de qualquer país, nos horários informados no site. Fora do Brasil, o 112 atende emergências na Europa e o 988 é a linha de crise nos Estados Unidos.





