Nem todo perfeccionismo prejudica a saúde mental da mesma forma. O modelo multidimensional da psicologia separa três tipos de perfeccionismo: o autodirigido, o dirigido ao outro e o socialmente prescrito. Décadas de pesquisa indicam que o terceiro, a percepção de que os outros exigem perfeição sob ameaça de rejeição, concentra a maior parte do risco de depressão e ansiedade.

Os psicólogos canadenses Paul Hewitt e Gordon Flett propuseram, em artigo publicado no Journal of Personality and Social Psychology em 1991, um modelo que até hoje organiza a pesquisa científica sobre perfeccionismo. Em vez de tratar o traço como coisa única, os dois pesquisadores separaram três dimensões distintas. O perfeccionismo autodirigido é a exigência que a pessoa impõe a si mesma. O perfeccionismo dirigido ao outro é a exigência que a pessoa impõe às pessoas ao redor. O perfeccionismo socialmente prescrito é a percepção de que os outros exigem perfeição da própria pessoa, com ameaça de rejeição caso ela falhe.

As três dimensões do modelo de Hewitt e Flett

Essa terceira dimensão concentra, segundo décadas de pesquisa subsequente, a maior parte do risco à saúde mental associado ao perfeccionismo. Estudo publicado no Journal of Counseling Psychology, comparando pacientes psiquiátricos e universitários, encontrou o perfeccionismo socialmente prescrito como preditor consistente de depressão, superando inclusive modelos cognitivos concorrentes na capacidade de prever o quadro depressivo. A explicação é relativamente intuitiva: acreditar que o próprio valor depende de atender a um padrão externo que a pessoa nem sempre controla gera um tipo de ansiedade crônica que o perfeccionismo autodirigido, voltado para dentro, não produz na mesma intensidade.

O perfil que combina as três dimensões

Pesquisa mais recente, publicada no Journal of Psychoeducational Assessment, usou uma abordagem centrada na pessoa, em vez de analisar cada dimensão isoladamente, para identificar perfis reais de combinação entre os três tipos em universitários e em adultos com doença crônica. O grupo identificado como perfeccionista extremo, com pontuação alta nas três dimensões ao mesmo tempo, relatou pior saúde física, pior saúde psicológica e menos recursos de bem-estar do que qualquer outro perfil, mesmo depois de descontar diferenças de neuroticismo e de conscienciosidade. Em contraste, o grupo classificado como não perfeccionista apresentou os melhores indicadores de saúde e bem-estar entre todos os perfis estudados.

Origem precoce do traço e direção do tratamento

O psicólogo Gordon Flett também documentou algo relevante sobre a origem do traço: crianças de apenas quatro e cinco anos de idade já demonstram sinais mensuráveis de perfeccionismo, com maior raiva e ansiedade diante de tarefas em experimentos controlados, o que sugere uma base precoce de desenvolvimento, não apenas um hábito adquirido na vida adulta ou no ambiente de trabalho.

O que a terapia trabalha em cada dimensão

Reconhecer qual dimensão do próprio perfeccionismo pesa mais muda a direção do trabalho terapêutico. Perfeccionismo autodirigido, mantido dentro de limites razoáveis, pode conviver com bom funcionamento e até com alta performance. O componente que mais consistentemente prevê sofrimento é a crença de que o próprio valor depende da aprovação alheia condicionada à perfeição, e é justamente esse componente que a terapia cognitivo-comportamental trabalha com mais eficácia, separando o desempenho da própria autoestima. O mecanismo lembra o descrito na síndrome do impostor em expatriados qualificados, em que a competência real convive com o medo constante de exposição. Quando o perfeccionismo já compromete a saúde mental de forma significativa, vale buscar apoio profissional. A Estação Terapia reúne psicólogos brasileiros com prática em terapia cognitivo-comportamental, inclusive em terapia online para brasileiros no exterior. É possível conhecer os psicólogos disponíveis para atendimento online e entender o formato da primeira sessão.

Como a ciência distingue os tipos de perfeccionismo

Quais são as três dimensões do perfeccionismo?

O modelo multidimensional separa três dimensões. O perfeccionismo autodirigido é a exigência que a pessoa impõe a si mesma. O dirigido ao outro recai sobre as pessoas ao redor. O socialmente prescrito traduz a percepção de que os outros exigem perfeição, com ameaça de rejeição diante de qualquer falha.

Quem formulou o modelo multidimensional do perfeccionismo?

Os psicólogos canadenses Paul Hewitt e Gordon Flett propuseram, em artigo publicado no Journal of Personality and Social Psychology em 1991, um modelo que até hoje organiza a pesquisa científica sobre o tema. Em vez de tratar o traço como coisa única, separaram três dimensões distintas e mensuráveis do perfeccionismo.

Qual perfil de perfeccionismo tem pior saúde?

Pesquisa publicada no Journal of Psychoeducational Assessment usou abordagem centrada na pessoa para identificar combinações reais entre as dimensões. O grupo perfeccionista extremo, com pontuação alta nas três ao mesmo tempo, relatou pior saúde física e psicológica. O grupo não perfeccionista apresentou os melhores indicadores de saúde e bem-estar entre todos.

O perfeccionismo aparece desde a infância?

O psicólogo Gordon Flett documentou que crianças de apenas quatro e cinco anos já demonstram sinais mensuráveis de perfeccionismo, com maior raiva e ansiedade diante de tarefas em experimentos controlados. O achado sugere uma base precoce de desenvolvimento do traço, e não apenas um hábito adquirido na vida adulta ou no trabalho.