Amor romântico e desejo sexual são processos distintos para o cérebro, embora compartilhem parte da mesma rede neural. Estudos de neuroimagem mostram que o desejo ativa mais a parte posterior da ínsula, enquanto o amor recruta a parte anterior e a área tegmental ventral, região ligada a recompensa e motivação.

As teorias que separam os componentes do amor

Em 1986, o psicólogo Robert Sternberg, então em Yale, publicou no periódico Psychological Review uma teoria que ainda organiza boa parte da pesquisa sobre relacionamentos: o amor teria três componentes independentes. A intimidade é o elemento morno, a proximidade e o vínculo emocional. A paixão é o elemento quente, o impulso que leva à atração física e ao desejo de consumação sexual. A decisão e o compromisso formam o elemento frio, a escolha consciente de amar e de manter esse amor ao longo do tempo. Sternberg descreveu esses três componentes combinando-se em diferentes proporções, do que resultam configurações bem distintas: paixão isolada gera o que ele chamou de paixão cega, o clássico amor à primeira vista; intimidade somada a compromisso, sem paixão, descreve o amor de companheiros de longa data; e os três juntos formam o que ele nomeou de amor consumado.

Um detalhe da teoria costuma escapar do senso comum sobre relacionamentos: intimidade e compromisso tendem a se manter relativamente estáveis com o tempo, enquanto a paixão sobe rápido no início e depois se acomoda num patamar mais baixo. Sternberg descreveu isso como parte esperada da trajetória de qualquer vínculo duradouro, não como sinal de que o amor está acabando.

Os três sistemas cerebrais descritos por Helen Fisher

A antropóloga biológica Helen Fisher, da Universidade Rutgers, propôs em 1998, no periódico Human Nature, um modelo complementar baseado em três sistemas cerebrais distintos. O desejo sexual estaria ligado a hormônios como estrogênio e testosterona. A atração romântica, o que popularmente se chama de paixão, estaria ligada a neurotransmissores como a dopamina. O apego de longo prazo estaria ligado a hormônios como ocitocina e vasopressina. A proposta de Fisher é que, ao longo da evolução humana, esses três sistemas se tornaram progressivamente mais independentes entre si, o que explicaria por que alguém consegue, ao mesmo tempo, desejar uma pessoa, sentir paixão intensa por outra e manter apego profundo por uma terceira.

O que a neuroimagem revela sobre paixão e vínculo

Estudos de ressonância magnética funcional deram apoio parcial a essa separação. Pesquisa conduzida por Arthur Aron em parceria com Fisher, publicada no Journal of Neurophysiology, examinou dezessete pessoas intensamente apaixonadas e encontrou ativação específica na área tegmental ventral e no núcleo caudado ao verem a foto da pessoa amada, regiões ricas em dopamina, associadas a recompensa e motivação, e distintas das áreas mais diretamente ligadas ao impulso sexual. A conclusão dos autores foi que o amor romântico funciona, sobretudo, como sistema motivacional, mais próximo do desejo por uma recompensa do que de uma emoção isolada.

Estudo posterior da mesma equipe acompanhou casais que continuavam intensamente apaixonados depois de, em média, vinte e um anos de casamento. A mesma área tegmental ventral apareceu ativa, como no amor recente, mas junto de regiões associadas ao apego de longo prazo e ao vínculo parental. Isso sugere que o amor duradouro combina o circuito de recompensa da paixão inicial com sistemas cerebrais adicionais ligados ao vínculo estável, e não simplesmente substitui um pelo outro.

Onde desejo e amor se encontram no cérebro

Meta-análise conduzida pela pesquisadora Stephanie Cacioppo e colegas, publicada no Journal of Sexual Medicine, comparou estudos de neuroimagem sobre desejo sexual e sobre amor romântico e encontrou uma rede cerebral comum entre os dois, incluindo áreas como a ínsula e o estriado. Havia, porém, um gradiente: a parte posterior da ínsula se associava mais ao desejo, e a parte anterior mais ao amor, com a área tegmental ventral mais ativada especificamente pelo amor. Os próprios autores sugerem que o amor se desenvolve a partir das experiências sensoriais prazerosas do desejo, como uma camada mais elaborada construída sobre essa base, o que nuança qualquer leitura de sistemas totalmente separados.

Para quem vive um relacionamento, o valor prático dessa pesquisa está em normalizar algo que muitos casais interpretam como fracasso: a queda natural da intensidade da paixão ao longo dos anos. Reconhecer que intimidade e compromisso seguem trajetórias mais estáveis do que a paixão ajuda a diferenciar uma fase esperada de relacionamento de um problema real que pede atenção terapêutica. Quando a queda do desejo vem acompanhada de sofrimento, vale conhecer o que já se sabe sobre disfunção erétil psicológica, libido e saúde mental; para casais brasileiros que vivem fora do país, a terapia online para brasileiros no exterior mantém o acompanhamento em português. A Estação Terapia reúne psicólogos brasileiros preparados para esse tipo de conversa de casal. É possível conhecer os psicólogos disponíveis para atendimento online e entender o formato da primeira sessão.

O que a neurociência revela sobre amar e desejar

Amor e desejo sexual são a mesma coisa para o cérebro?

Amor romântico e desejo sexual compartilham parte da mesma rede cerebral, mas não são idênticos. Estudos de neuroimagem encontram ativação comum na ínsula e no estriado, com um gradiente: a parte posterior da ínsula associa-se mais ao desejo, e a anterior mais ao amor, que recruta também a área tegmental ventral.

Quais são os três componentes do amor segundo Sternberg?

Em 1986, no Psychological Review, Robert Sternberg descreveu três componentes independentes. A intimidade é o elemento morno, de proximidade e vínculo emocional. A paixão é o elemento quente, do impulso e da atração física. A decisão e o compromisso formam o elemento frio, a escolha consciente de amar e de manter esse amor.

A queda da paixão num relacionamento longo significa o fim do amor?

Não necessariamente. Sternberg descreve a paixão como o componente menos estável, que sobe rápido no início e depois se acomoda, enquanto intimidade e compromisso permanecem mais constantes. Estudos de neuroimagem com casais casados há mais de vinte anos e ainda apaixonados mostram o circuito de recompensa somado a regiões de apego duradouro.

O que Helen Fisher propôs sobre desejo, paixão e apego?

A antropóloga Helen Fisher propôs em 1998, no periódico Human Nature, três sistemas cerebrais distintos: o desejo ligado a estrogênio e testosterona, a atração romântica ligada à dopamina e o apego de longo prazo ligado a ocitocina e vasopressina. Para Fisher, esses sistemas se tornaram progressivamente mais independentes ao longo da evolução.

O amor romântico funciona como uma emoção ou como motivação?

Pesquisa de Arthur Aron em parceria com Helen Fisher, publicada no Journal of Neurophysiology, examinou dezessete pessoas intensamente apaixonadas e encontrou ativação na área tegmental ventral e no núcleo caudado, regiões ricas em dopamina e ligadas a recompensa. Os autores concluíram que o amor romântico opera sobretudo como sistema motivacional.