BDSM praticado com consentimento entre adultos não aparece associado a transtorno psicológico nos estudos disponíveis. A CID-11 retirou o sadomasoquismo consensual da lista de condições psiquiátricas, e pesquisas com centenas de praticantes e milhares de entrevistados encontraram bem-estar igual ou superior ao de grupos de comparação, com diagnóstico reservado aos quadros sem consentimento.

O que os manuais diagnósticos dizem sobre práticas consensuais

A quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, mantida na revisão de texto de 2022, separa dois conceitos que a linguagem cotidiana costuma confundir: parafilia e transtorno parafílico. Uma parafilia é um interesse sexual atípico. Só existe transtorno quando esse interesse causa sofrimento à própria pessoa, prejuízo em áreas importantes da vida, ou quando envolve alguém que não deu consentimento. A Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde, na décima primeira edição, foi além: retirou o sadomasoquismo praticado com consentimento da lista de condições psiquiátricas e manteve diagnóstico apenas para o quadro ligado à coerção sexual, sem consentimento da outra parte.

Os estudos com praticantes e grupos de comparação

Um estudo publicado no periódico The Journal of Sexual Medicine, conduzido por Andreas Wismeijer e Marcel van Assen, da Universidade de Tilburg, na Holanda, comparou 902 praticantes de BDSM a 434 pessoas de um grupo controle, usando instrumentos validados de personalidade, estilo de apego e bem-estar subjetivo, entre eles o índice WHO-5, da própria Organização Mundial da Saúde. Os praticantes apresentaram menos neuroticismo, mais abertura a experiências novas, menos sensibilidade à rejeição e bem-estar subjetivo maior do que o grupo controle. A única diferença desfavorável foi um grau menor de amabilidade interpessoal. Os pesquisadores concluíram que o BDSM pode ser compreendido como forma de lazer recreativo entre adultos, não como expressão de um processo psicopatológico.

Pesquisa publicada no mesmo periódico, conduzida pela equipe de Juliet Richters com base no Australian Study of Health and Relationships, mais de dezenove mil pessoas entrevistadas por telefone, testou diretamente a hipótese oposta: a de que quem pratica BDSM teria histórico de coerção sexual, dificuldades sexuais ou sofrimento psicológico maior do que a população geral. O estudo definiu a prática de forma ampla, incluindo bondage, disciplina, dominação e submissão, e não encontrou relação significativa entre nenhuma dessas categorias e histórico de coerção, disfunção sexual ou sofrimento psicológico. Entre os homens praticantes, o sofrimento psicológico medido foi até menor do que entre os demais participantes do estudo.

Limites da evidência e o papel da comunicação

Em entrevistas posteriores à publicação, Wismeijer atribuiu parte desse perfil ao fato de a prática exigir negociação explícita de limites, duração e desejos antes de começar. É uma leitura pessoal do autor, não uma variável medida diretamente pelo estudo, mas coerente com outro achado consistente na literatura sobre relacionamentos: casais que comunicam desconforto e limites com clareza relatam mais satisfação conjugal, dentro ou fora de qualquer prática sexual específica.

Nenhum dos dois estudos permite afirmar que o BDSM produz bem-estar por si só. São desenhos transversais, e a amostra holandesa foi recrutada por conveniência, o que abre espaço para que pessoas já bem ajustadas sejam também as mais dispostas a responder esse tipo de questionário online. O que a evidência hoje disponível desautoriza é a suposição automática de que a prática revela, por trás, um trauma ou um transtorno.

Quando a dúvida envolve menos a prática em si e mais o desconforto pessoal, o conflito de casal em torno dela ou a dificuldade de comunicar limites, esse é exatamente o tipo de questão que a psicoterapia trabalha, sem julgamento moral sobre a prática. O desconforto com o próprio corpo durante a intimidade, descrito em vergonha do corpo, autocrítica estética e inibição sexual, aparece com frequência nessas conversas, e a terapia online para brasileiros no exterior permite tratá-las em português, de qualquer país. A Estação Terapia reúne psicólogos brasileiros preparados para esse tipo de conversa. É possível conhecer os psicólogos disponíveis para atendimento online e entender o formato da primeira sessão.

O que a pesquisa clínica encontra em quem pratica BDSM

BDSM é sinal de trauma ou de transtorno psicológico?

Não, segundo a evidência disponível. Estudo da Universidade de Tilburg, no The Journal of Sexual Medicine, comparou 902 praticantes a 434 controles e não encontrou ligação com neuroticismo elevado ou apego inseguro. Pesquisa populacional australiana, com mais de dezenove mil entrevistados, tampouco achou relação com histórico de coerção ou sofrimento psicológico.

O que os manuais diagnósticos dizem sobre práticas consensuais?

O DSM-5, na revisão de 2022, separa parafilia, um interesse sexual atípico, de transtorno parafílico, que exige sofrimento, prejuízo ou ausência de consentimento. A Classificação Internacional de Doenças, em sua décima primeira edição, retirou o sadomasoquismo consensual da lista de condições psiquiátricas e manteve diagnóstico apenas para a coerção sexual.

O que o estudo da Universidade de Tilburg encontrou nos praticantes?

A pesquisa de Wismeijer e van Assen, no The Journal of Sexual Medicine, comparou 902 praticantes de BDSM a 434 controles com instrumentos validados. Os praticantes apresentaram menos neuroticismo, mais abertura a experiências novas, menos sensibilidade à rejeição e bem-estar subjetivo maior. Os autores interpretaram a prática como lazer recreativo entre adultos.

Quais são os limites dessa evidência?

Nenhum dos estudos permite afirmar que o BDSM produza bem-estar por si só. São desenhos transversais, e a amostra holandesa foi recrutada por conveniência, o que abre espaço para que pessoas já bem ajustadas respondam mais a esse tipo de questionário. O que a evidência desautoriza é a suposição automática de trauma ou transtorno.

Quando a prática de BDSM deve levar à terapia?

A terapia faz sentido quando existe sofrimento pessoal em torno da prática, dificuldade de negociar limites com o parceiro ou conflito de casal que ela expõe. O trabalho clínico acontece sem julgamento moral sobre a prática. A CID-11 reserva o diagnóstico psiquiátrico apenas para quadros sem consentimento, nunca para a prática consensual entre adultos.