Há um tipo de desconforto que parte das pessoas que emigraram descrevem com dificuldade de nomear: a conta bancária cresceu, o salário chega em euro, as contas estão pagas. E ainda assim algo pesa. A sensação vai além da preocupação com o próximo aluguel: o esforço parece ter valido menos do que antes, o lugar ocupado no mundo parece ter ficado de alguma forma menor.
Esse sofrimento tem nome e encontra suporte na pesquisa clínica. Ele envolve dois mecanismos que operam em paralelo: a comparação social, que instala uma régua de avaliação diferente da que existia no país de origem, e a mobilidade social descendente percebida, que ocorre quando a posição subjetiva de status piora mesmo com melhora na renda objetiva.
Os dois processos são distintos, e cada um alimenta sofrimento psíquico mesmo quando os números indicam melhora objetiva de vida.
A comparação como motor do mal-estar
Duas direções, dois tipos de sofrimento
Em 1954, o psicólogo social Leon Festinger publicou uma teoria sobre por que as pessoas avaliam a própria posição por referência a outros. Segundo essa formulação clássica, a ausência de parâmetros objetivos leva o ser humano a usar comparações sociais como critério principal de autoavaliação. A clínica reproduz esse padrão com grande frequência.
O problema é que o grupo de referência muda quando uma pessoa emigra.
Quem vivia no Brasil e se comparava com o círculo de classe média local chega à Europa e encontra dois grupos novos. O primeiro é composto por quem “venceu”: compatriotas que chegaram antes, têm emprego estável, falam o idioma com desenvoltura e conquistaram reconhecimento na área. A comparação com esse grupo, chamada comparação ascendente, tende a produzir frustração e sensação de estar ficando para trás em relação ao próprio projeto.
O segundo grupo é composto por quem está em situação mais difícil: quem ainda regulariza documentos, quem trabalha em condições precárias, quem perdeu o emprego. A comparação descendente poderia gerar alívio, mas estudos sobre bem-estar subjetivo sugerem que isso raramente ocorre de forma sustentada. A consciência de “poderia ser pior” não apaga a sensação de que o projeto não caminhou como esperado.
As duas direções de comparação podem alimentar mal-estar, embora por caminhos diferentes. A ascendente ativa a sensação de inadequação. A descendente pode reforçar o medo de regredir. Não há, nessa equação, uma posição que produza conforto duradouro por si só.
Para o imigrante brasileiro, essa dinâmica se intensifica por uma razão específica: a mudança de grupo de referência é abrupta. O processo de adaptação emocional que isso exige, muito além de aprender um idioma, é detalhado em um artigo anterior sobre o custo emocional de recomeçar em outro país.
Mobilidade descendente percebida: quando o lugar social muda mais que a renda
Mobilidade social objetiva mede renda, patrimônio e acesso a bens. Mobilidade social percebida mede a posição que a própria pessoa acredita ocupar na hierarquia social, e essa avaliação depende do grupo de referência disponível.
O imigrante brasileiro que era classe média no Brasil, tinha cargo de supervisão e frequentava círculos que conferiam reconhecimento profissional, e que emigrou para trabalhar em uma função operacional na Europa pode ter aumentado objetivamente a renda. A mobilidade percebida, porém, pode ter sido descendente. O cargo, o idioma fluente, os marcadores externos de status que antes sinalizavam posição mudaram para pior, mesmo que o extrato bancário não tenha piorado.
O que os estudos documentam
Uma coorte sueca acompanhada longitudinalmente e publicada no PLOS ONE (PMID 24260104) identificou associação entre mobilidade social descendente e desenvolvimento de transtorno psiquiátrico, com destaque para depressão e ansiedade. A associação permaneceu após controle de variáveis socioeconômicas, o que sugere que o mecanismo percebido carrega peso independente da situação financeira absoluta.
Uma revisão sistemática publicada em 2023 (PMID 38006845) consolidou evidências de que tanto a mobilidade objetiva quanto a percebida se associam a desfechos de saúde mental, com padrão mais robusto para a percepção subjetiva de posição do que para a renda em si.
No contexto específico de migração, um estudo com refugiados sírios na Alemanha (PMID 29340877) identificou que a percepção de mobilidade subjetiva descendente era preditora de sintomas depressivos, independentemente da situação financeira absoluta da família. O dado aponta na mesma direção: o que tende a machucar, nesses casos, vai além da falta objetiva de dinheiro. A percepção de ter perdido posição em uma hierarquia considerada relevante carrega peso próprio.
O que fica sem nome nesse processo é justamente essa perda. A narrativa que circunda a emigração, tanto a que a família projeta quanto a que o próprio imigrante carregou consigo, é quase sempre de ascensão. Quando a experiência concreta contradiz essa narrativa, o sofrimento fica sem palavras disponíveis para ser expresso. E sofrimento que não encontra nome é sofrimento que não encontra saída.
A insegurança financeira do imigrante e seus efeitos na saúde mental é um tema próximo, mas distinto: aquele artigo examina a pressão objetiva da renda instável e das contas, e este examina a pressão subjetiva do lugar social percebido. Os dois mecanismos coexistem com frequência e se intensificam mutuamente.
A escolha legítima e a dissonância que emerge depois
Emigrar disposto a “ganhar menos e viver melhor” é uma escolha válida. Trocar renda por segurança pública, sistema de saúde, qualidade de vida cotidiana ou clima é uma troca que cada pessoa tem o direito de fazer segundo seus próprios critérios.
A escolha, por si só, não produz o sofrimento descrito aqui. O que pesa é o que vem depois, quando o encanto do início passa.
Os primeiros meses em um novo país têm uma qualidade particular: tudo é novo, a comparação com o que ficou para trás está fresca na memória, cada conquista pequena ganha peso grande. Esse período de descoberta tem documentação na literatura sobre adaptação intercultural. O ciclo de adaptação do imigrante em fases descreve com detalhe essa trajetória em U.
Quando a curva desce, a tensão interna emerge. A pessoa que escolheu conscientemente “ser mais pobre para viver melhor” começa a questionar se vive de fato melhor, e se o trabalho que encontrou é o que tinha imaginado para si. A escolha original permanece válida, mas a distância entre o que foi imaginado e o que foi encontrado pode produzir sofrimento real.
No vocabulário clínico, dissonância é a tensão entre duas crenças ou estados que não se encaixam. Nesse caso, ela ocorre entre “eu escolhi isso com consciência” e “eu me sinto deslocado e insatisfeito com o que escolhi”. Reconhecer essa tensão sem invalidar a escolha original exige uma habilidade específica: separar o valor da decisão tomada dos efeitos que ela produziu, o que não é automático.
Boa parte das pessoas que chegam ao sentimento de não pertencer no exterior carregam exatamente essa tensão. A escolha foi feita com maturidade, e a adaptação produziu um custo que não estava no cálculo original.
O que o processo terapêutico pode fazer
O trabalho em terapia com pessoas que descrevem esse padrão tende a percorrer três movimentos que se complementam.
O primeiro é nomear. Boa parte das pessoas que chegam ao consultório com esse sofrimento descrevem uma insatisfação difusa que não conseguem identificar com precisão. Quando o processo terapêutico consegue distinguir “estou com pressão financeira” de “sinto que ocupo uma posição social que não é a minha”, a experiência fica mais legível. Experiência legível é experiência que pode ser trabalhada.
O segundo movimento é separar valor próprio de posição social, o que é mais difícil do que parece. A comparação social opera como se o lugar na hierarquia definisse quem a pessoa é, e em um país novo, sem os marcadores habituais de reconhecimento, essa equação pode se resolver de formas que machucam. O contexto terapêutico oferece a possibilidade de examinar essa equação e construir referências de autoavaliação menos dependentes de posição relativa.
O terceiro é lidar com a comparação sem suprimi-la. A estratégia de “parar de se comparar” raramente produz resultado duradouro. A comparação social é um processo cognitivo automático com função adaptativa: não se desliga por decisão. O que pode ser trabalhado é a relação que a pessoa mantém com o resultado: quanto peso dá ao que ele revela, que ações toma a partir desse dado, se o trata como informação ou como veredicto.
Se quiser ter um ponto de partida para esse processo de autoconhecimento, o teste de satisfação com a vida disponível no Radar Estação pode te ajudar a identificar aspectos da vida atual que merecem atenção. São testes de rastreio gratuitos, entretanto não substituem uma avaliação psicológica ou um laudo feito diretamente com um profissional.
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Referências
- Mobilidade social e transtorno psiquiátrico em coorte longitudinal sueca. PLOS ONE, 2013. PMID 24260104.
- Mobilidade social descendente e saúde mental: revisão sistemática. 2023. PMID 38006845.
- Mobilidade subjetiva percebida e sintomas depressivos em refugiados sírios na Alemanha. 2018. PMID 29340877.
Perguntas frequentes sobre comparação social e mobilidade descendente
Por que mesmo ganhando mais no exterior a pessoa pode se sentir pior do que no Brasil?
A avaliação de bem-estar depende menos da renda absoluta e mais da posição percebida em relação ao grupo de referência. Quando esse grupo muda com a emigração, a renda que antes colocava a pessoa acima da média pode passar a colocá-la abaixo da nova média, gerando sensação de queda mesmo sem queda objetiva nos números.
O que é mobilidade descendente percebida no contexto da imigração?
Mobilidade descendente percebida ocorre quando a posição subjetiva na hierarquia social piora, mesmo que a renda absoluta tenha aumentado. Na imigração, isso acontece quando o imigrante ocupa cargo de menor prestígio no novo país do que ocupava no Brasil, perdendo marcadores como reconhecimento profissional, fluência no idioma e acesso a redes sociais de status.
A comparação com quem está pior deveria ajudar. Por que às vezes piora?
A comparação descendente pode gerar alívio momentâneo, mas também ativa o medo de continuar caindo. Quando a pessoa se identifica com quem está pior, essa comparação serve de referência para o que quer evitar, não de consolo. O efeito depende de como se interpreta o resultado da comparação, não apenas de qual direção ela aponta.
Como a terapia ajuda com a sensação de não pertencer ao novo país?
O processo terapêutico trabalha a nomeação do sofrimento, a separação entre valor próprio e posição social, e o manejo da comparação como ferramenta de autoconhecimento em vez de veredicto. Para quem carrega também a sensação de não pertencer, o artigo sobre identidade e sentimento de não pertencer aprofunda esse ângulo.
Renan Puléo Barela Psicólogo · CRP 06/147711 Psicólogo clínico e palestrante, pós-graduado em terapia do esquema pelo CETCC e em neurociência pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Integra a pesquisa A next generation of the schema therapy model of personality pathology, que avança o modelo de Jeffrey Young sobre esquemas e patologia de personalidade. Acessar a pesquisa no PLOS ONE →





