Às onze da noite, com o fuso horário trocado e o celular na mão, uma notícia sobre o Brasil aparece na tela. Então outra. E mais uma, em inglês, sobre o país onde se mora agora. Vinte minutos depois, a tela ainda está acesa e o sono foi embora, substituído por uma tensão difusa que não tem nome claro.

Esse padrão tem um nome: doomscrolling. E ele tem efeitos mensuráveis na saúde mental, especialmente para quem vive entre dois mundos informativos ao mesmo tempo.

O que é doomscrolling e por que ele prende

Doomscrolling é o comportamento de rolar o feed de notícias e redes sociais de forma repetitiva, com foco em conteúdo negativo ou perturbador, mesmo quando isso provoca desconforto. O termo ganhou circulação durante a pandemia de COVID-19 e passou a ser estudado como um padrão de consumo de informação com impactos documentados na saúde mental.

O comportamento não é apenas um hábito ruim. Uma pesquisa de validação de escala publicada em 2022 identificou que o doomscrolling se associa a sofrimento psicológico e piora de indicadores de bem-estar, com o sofrimento funcionando como mecanismo mediador entre o comportamento e seus efeitos sobre a qualidade de vida (PMID 36275044).

O ciclo se sustenta porque o algoritmo das plataformas favorece conteúdo que gera resposta emocional intensa, e o sistema nervoso humano tem uma tendência natural a priorizar informação de ameaça. Esse mecanismo foi útil durante boa parte da história da espécie, quando ameaças eram físicas e próximas. O problema é que o mesmo sistema de alerta responde com ativação semelhante a notícias sobre crises ocorrendo a milhares de quilômetros, em contextos que a pessoa não pode controlar.

Como o noticiário ativa o sistema de ansiedade

Uma revisão publicada em Health Psychology demonstrou que a exposição repetida a notícias sobre crises e catástrofes amplifica as consequências psicológicas da crise sobre pessoas que não estão diretamente expostas a ela. O efeito documentado inclui respostas de estresse elevadas e comportamentos de preocupação desproporcionais ao risco real (PMID 32202824). O argumento central da revisão é que o acesso ininterrupto à cobertura de eventos perturbadores produz sequelas psicológicas comparáveis às de quem viveu a situação de perto.

O mecanismo envolve ativação recorrente do sistema de alerta: cada notícia perturbadora dispara uma descarga de cortisol, cria um estado de prontidão, e direciona a atenção para mais estímulos ameaçadores. Quando o ciclo se repete várias vezes ao longo do dia, o sistema nervoso autônomo acumula carga fisiológica que o sono não consegue liquidar completamente.

O resultado, na maior parte dos casos, não assume a forma de terror ou pânico agudo. Instala-se como tensão de fundo, sutil, que torna tudo levemente mais difícil: dormir, concentrar, estar presente numa conversa.

A dupla exposição de quem vive no exterior

Para imigrantes, o cenário tem uma camada adicional. O consumo de notícias não é de uma fonte, mas de duas: o país de origem e o país de acolhimento, com idiomas e contextos diferentes, frequentemente com agenda de problemas próprios que afetam diretamente a vida do imigrante.

Tensões econômicas nos países europeus se traduzem em preocupação com emprego e custo de vida. Debates sobre políticas de imigração geram incerteza sobre permanência e documentação. O que acontece no Brasil produz inquietação sobre família, sobre amigos, sobre um futuro que talvez se passe de longe. São fontes distintas de ansiedade, todas chegando pelo mesmo dispositivo, todas contribuindo para o mesmo estado de alerta.

O efeito é uma sensação de estar no meio de dois mundos em turbulência simultânea, sem controle direto sobre nenhum dos dois. Esse estado de impotência percebida é um fator de risco para ansiedade difusa, porque o sistema nervoso mantém o estado de alerta sem que exista uma ação disponível para resolver a ameaça.

O artigo sobre crise de ansiedade e incerteza migratória cobre o que acontece quando a ansiedade relacionada à situação migratória se manifesta em episódios agudos. O doomscrolling alimenta um padrão diferente: a ansiedade crônica e difusa que se constrói no intervalo entre os episódios.

Ansiedade vicária e locus de controle

A ansiedade alimentada por notícias compartilha características com o que a literatura clínica descreve como ansiedade vicária: o sofrimento surge não de uma experiência direta, mas da exposição a relatos do sofrimento de outros ou da antecipação de cenários futuros. Em intensidade e frequência suficientes, esse padrão produz respostas fisiológicas e cognitivas semelhantes às geradas por ameaças diretas.

Um estudo prospectivo representativo em nível nacional identificou que a exposição diária à mídia durante um período de crise foi um preditor independente de sintomas de estresse agudo e depressão, mesmo após controle para variáveis demográficas e condições de saúde pré-existentes (PMID 32948511). A magnitude do efeito da exposição mediática foi comparável à de estressores secundários concretos, como perda de renda ou dificuldades de acesso à saúde.

A relação com o locus de controle é relevante. Quem percebe que as ameaças estão fora do seu alcance, como uma mudança de política de imigração ou uma crise econômica global, tende a rolar mais o feed em busca de informação que ofereça alguma sensação de controle. A informação raramente oferece essa sensação. O ciclo se mantém.

Quando a ansiedade difusa evolui para transtorno de ansiedade generalizada

Preocupação excessiva com múltiplos temas, dificuldade de controlar o fluxo de pensamentos ansiosos e tensão muscular persistente são características centrais do transtorno de ansiedade generalizada (TAG). Uma revisão abrangente sobre os mecanismos do TAG descreveu a preocupação crônica como um processo que mantém a ativação fisiológica mesmo na ausência de estímulo externo imediato, com impacto direto na qualidade do sono, na concentração e na capacidade de engajamento com o cotidiano (PMID 23537486).

O doomscrolling pode atuar como gatilho e como manutenção do ciclo de ansiedade generalizada: fornece estímulos novos para a preocupação, impede que o sistema nervoso descanse e alimenta a percepção de que o mundo é um lugar intrinsecamente perigoso e imprevisível.

Isso não significa que todo padrão de consumo excessivo de notícias configura TAG. Significa que o hábito, quando persistente, contribui para a construção de um estado de ansiedade que pode evoluir para algo que responde a critérios clínicos e que requer atenção profissional.

O que ajuda no cotidiano

Algumas estratégias têm respaldo clínico para reduzir o impacto do consumo excessivo de notícias.

Definir janelas de informação: escolher dois momentos fixos do dia para checar notícias, com duração limitada, e recusar o acesso fora desses períodos. O sistema nervoso se organiza melhor quando a exposição ao estímulo tem hora e limite.

Distinguir notícia útil de notícia consumida por ansiedade. Uma notícia sobre renovação de visto ou sobre uma lei que afeta diretamente a situação da pessoa tem utilidade prática. Uma notícia que gera preocupação sem oferecer informação acionável serve principalmente para alimentar o estado de alerta, sem oferecer nada em troca.

Perceber quando o celular está na mão por ansiedade, não por escolha. O doomscrolling frequentemente começa como gesto automático, não como decisão consciente. Nomear o comportamento, em voz alta ou por escrito, ativa o córtex pré-frontal e compete com o processamento emocional que sustenta o ciclo.

Reduzir o número de fontes monitoradas. Cobrir dez portais em vez de dois não aumenta a qualidade da informação; aumenta o volume de estímulos ansiogênicos.

Quando a psicoterapia é indicada

A psicoterapia é indicada quando a ansiedade relacionada ao consumo de notícias começa a interferir de forma consistente no sono, na concentração, nos relacionamentos ou na capacidade de desfrutar de atividades cotidianas. Também quando a pessoa percebe que o ciclo de consumo e preocupação se repete diariamente sem que estratégias de controle tenham efeito.

Para quem percebe que a questão vai além do noticiário e tem relação com como se sente no exterior, com pertencimento e identidade, o artigo sobre sentimento de não pertencer e identidade do imigrante aborda essa camada específica.

A terapia cognitivo-comportamental tem evidência consolidada para o tratamento do transtorno de ansiedade generalizada e para a modificação de padrões de preocupação crônica. Para quem vive no exterior, o atendimento com psicólogo brasileiro online elimina barreiras reais: idioma, diferença de contexto cultural, horários compatíveis com o fuso.

Se quiser um ponto de partida para avaliar o quanto a ansiedade está impactando diferentes áreas da sua vida, o teste de satisfação com a vida disponível no Radar Estação pode ajudar a identificar onde o sofrimento está mais concentrado. São testes de rastreio gratuitos, entretanto não substituem uma avaliação psicológica ou um laudo feito diretamente com um profissional.

Você pode conhecer os psicólogos brasileiros disponíveis para atendimento online e encontrar aquele que melhor se encaixa no seu momento.


Referências

  • Garfin DR, Silver RC, Holman EA. The novel coronavirus (COVID-2019) outbreak: Amplification of public health consequences by media exposure. Health Psychology. 2020. PMID 32202824.
  • Satici B, Gocet-Tekin E, Deniz ME, Satici SA. Doomscrolling scale: Its association with personality traits, psychological distress, social media use, and wellbeing. Applied Research in Quality of Life. 2022. PMID 36275044.
  • Newman MG, Llera SJ, Erickson TM, Przeworski A, Castonguay LG. Worry and generalized anxiety disorder: a review and theoretical synthesis of evidence on nature, etiology, mechanisms, and treatment. Annual Review of Clinical Psychology. 2013. PMID 23537486.

Perguntas frequentes sobre doomscrolling e ansiedade

O que é doomscrolling?

Doomscrolling é o comportamento de rolar o feed de notícias ou redes sociais de forma compulsiva, com foco em conteúdo negativo, mesmo quando isso provoca desconforto. O padrão se sustenta pela tendência do sistema nervoso de priorizar informação de ameaça e pelo funcionamento dos algoritmos de plataformas, que favorecem conteúdo de alto impacto emocional.

Doomscrolling pode causar ansiedade?

Pesquisas associam o consumo excessivo de notícias perturbadoras a sofrimento psicológico, piora do sono e estados de alerta prolongados. A exposição repetida a conteúdo de crise pode produzir respostas de estresse semelhantes às geradas por ameaças diretas, mesmo em quem não está envolvido no evento coberto pelo noticiário.

Como parar de fazer doomscrolling?

Definir horários fixos para checar notícias, limitar o número de fontes e reconhecer quando o acesso ao celular está sendo feito por ansiedade são estratégias com respaldo clínico. Para padrões mais difíceis de modificar, a psicoterapia pode ajudar a identificar o que sustenta o ciclo e a trabalhar estratégias de regulação emocional.

Qual a diferença entre se informar e fazer doomscrolling?

A informação útil produz dados acionáveis e tem fim. O doomscrolling não tem um ponto de chegada: o objetivo implícito é reduzir a ansiedade por meio da vigilância, mas a vigilância prolonga a ansiedade em vez de diminuí-la. A distinção prática está em perguntar, depois de consumir uma notícia, se ela mudou alguma coisa ou apenas elevou a tensão.

A psicoterapia online ajuda para ansiedade por notícias?

A terapia cognitivo-comportamental online tem eficácia equivalente à presencial para transtornos de ansiedade em adultos. Para quem vive no exterior, o atendimento com psicólogo brasileiro elimina as barreiras de idioma e de diferença de contexto cultural, que são obstáculos reais quando se busca apoio localmente.


Renan Puléo Barela Psicólogo · CRP 06/147711 Psicólogo clínico e palestrante, pós-graduado em terapia do esquema pelo CETCC e em neurociência pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Integra a pesquisa A next generation of the schema therapy model of personality pathology, que avança o modelo de Jeffrey Young sobre esquemas e patologia de personalidade. Acessar a pesquisa no PLOS ONE →