Ser feliz sozinho é possível, segundo a pesquisa longitudinal sobre bem-estar. Estudos que acompanham as mesmas pessoas ao longo dos anos mostram que o casamento produz apenas um pico temporário de felicidade, seguido de retorno ao nível anterior. Quem escolhe a vida solteira relata bem-estar estável e redes de amizade frequentemente mais amplas do que as de pessoas casadas.
A psicóloga social Bella DePaulo, afiliada à Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, passou mais de três décadas revisando a pesquisa científica por trás de uma ideia quase incontestada culturalmente: a de que pessoas casadas vivem mais felizes e mais saudáveis do que pessoas solteiras. O que ela encontrou, ao examinar os próprios métodos usados nesses estudos, foi um padrão recorrente de viés: pesquisas transversais, que comparam casados e solteiros num único momento do tempo, de fato encontram diferença a favor dos casados, mas pesquisas longitudinais, que acompanham a mesma pessoa ao longo dos anos, contam uma história bem diferente.
O que os estudos de longo prazo mostram
O estudo mais citado nessa linha, conduzido ao longo de dezoito anos e batizado de Lifelines of Happiness Study, acompanhou a mesma amostra de pessoas ano a ano, medindo o nível de felicidade relatado antes e depois do casamento. O padrão encontrado foi o de um pico de felicidade concentrado no período em torno do casamento e da lua de mel, seguido por um retorno gradual ao nível basal de felicidade que a pessoa já tinha antes de se casar. Esse fenômeno, chamado de adaptação hedônica, é o mesmo mecanismo psicológico que explica por que a maioria dos eventos de vida, bons ou ruins, tem efeito temporário sobre o bem-estar relatado, e não permanente.
Singlismo e os solteiros de coração
DePaulo cunhou o termo singlismo para descrever o conjunto de estereótipos, estigmas e desvantagens estruturais enfrentadas por quem vive solteiro, da percepção social de que a vida solteira é incompleta até vantagens econômicas concretas concedidas apenas a casais, como descontos em seguro e pacotes de viagem. Em livro publicado depois de reunir dados de pesquisa com mais de vinte mil pessoas de mais de cem países, ela descreveu o grupo que chamou de solteiro de coração, pessoas para quem viver sozinho não é uma etapa de transição a caminho de um relacionamento, mas a forma de vida mais alinhada ao próprio florescimento pessoal, com bem-estar que tende a aumentar, não diminuir, ao longo do envelhecimento.
Rede de apoio e solidão: cenários diferentes
Um achado específico dessa linha de pesquisa contraria diretamente a imagem de solidão associada à vida solteira. Pessoas solteiras que assumem essa condição como escolha, segundo os dados reunidos por DePaulo, tendem a investir mais tempo e energia em amizades e em vínculos familiares do que pessoas em relacionamento, que, em média, tendem a se tornar mais fechadas socialmente depois de morar junto ou casar. Isso sugere que a rede de apoio social de quem vive só não é necessariamente mais fraca, apenas organizada de forma diferente, distribuída entre mais pessoas em vez de concentrada num único parceiro.
Escolha genuína e pressão externa
Nada disso significa que relacionamentos não tragam benefícios reais para quem os deseja, nem que solidão involuntária não seja um problema de saúde mental sério, como mostra pesquisa já discutida sobre isolamento social. A distinção relevante é entre solidão indesejada, que carrega risco real à saúde, e escolha genuína por uma vida solteira, que a pesquisa não associa a prejuízo de bem-estar quando é isso que a própria pessoa quer. Confundir os dois cenários, tratando toda pessoa solteira como carente de companhia, é o próprio singlismo que a pesquisa buscou nomear. Quando a pressão externa sobre o próprio estado civil, e não o desejo genuíno de companhia, é o que causa sofrimento, vale trabalhar essa pressão em terapia, assim como nos quadros de dependência emocional, quando amar começa a doer. A Estação Terapia reúne psicólogos brasileiros preparados para esse tipo de conversa, inclusive em terapia online para brasileiros no exterior. É possível conhecer os psicólogos disponíveis para atendimento online e entender o formato da primeira sessão.
O que a pesquisa de longo prazo revela sobre viver só
O que é a adaptação hedônica no casamento?
O Lifelines of Happiness Study acompanhou a mesma amostra por dezoito anos e mediu a felicidade antes e depois do casamento. O padrão foi um pico concentrado em torno da união e da lua de mel, seguido de retorno gradual ao nível basal. Esse fenômeno recebe o nome de adaptação hedônica.
O que significa singlismo?
Singlismo é o termo cunhado por Bella DePaulo para o conjunto de estereótipos, estigmas e desvantagens estruturais enfrentadas por quem vive solteiro. Vai da percepção social de que a vida solteira seria incompleta até vantagens econômicas concedidas apenas a casais, como descontos em seguro e pacotes de viagem mais baratos.
Quem são os solteiros de coração?
A partir de dados de pesquisa com mais de vinte mil pessoas em mais de cem países, DePaulo descreveu o grupo que chamou de solteiro de coração. São pessoas para quem viver sozinho representa a forma de vida mais alinhada ao próprio florescimento, com bem-estar que tende a crescer ao longo do envelhecimento.
A vida solteira enfraquece a rede de apoio?
Não necessariamente. Segundo os dados reunidos por DePaulo, pessoas solteiras por escolha tendem a investir mais tempo em amizades e vínculos familiares, enquanto casais costumam se fechar socialmente após morar junto. A rede de apoio de quem vive só aparece distribuída entre mais pessoas, em vez de concentrada num único parceiro.





