A síndrome do impostor é comum entre profissionais e reduz a autoestima de forma consistente, mas a pesquisa indica que ela não compromete a qualidade técnica do trabalho. Estudo do MIT com milhares de funcionários encontrou desempenho preservado e, em alguns contextos, melhor avaliação interpessoal entre quem relata esses pensamentos.

Em 1978, as psicólogas Pauline Rose Clance e Suzanne Imes descreveram, pela primeira vez, um padrão que observavam repetidamente em mulheres de alto desempenho profissional e acadêmico: a sensação persistente de ser uma fraude, de não merecer o próprio sucesso, e o medo constante de que essa suposta farsa fosse descoberta a qualquer momento. Batizaram o fenômeno de fenômeno do impostor. Quase cinco décadas depois, a pesquisa mostra que ele está longe de ser raro ou restrito a um gênero específico. Revisão sistemática de 62 estudos, somando mais de catorze mil participantes, encontrou prevalência que variou de 9% a 82% conforme o instrumento e o ponto de corte usados.

O que o estudo do MIT encontrou sobre desempenho

A pesquisadora Basima Tewfik, do MIT Sloan School of Management, conduziu um dos estudos mais completos já feitos sobre o tema em ambiente de trabalho, publicado no periódico Academy of Management Journal. Ao analisar mais de três mil e seiscentos funcionários em diferentes estudos, incluindo profissionais de uma gestora de investimentos e médicos residentes em formação, Tewfik chegou a um resultado que contraria boa parte do senso comum sobre o tema: pensamentos de impostor no trabalho não reduziram a produtividade nem a qualidade técnica do trabalho realizado. Entre os médicos residentes, por exemplo, quem relatava mais pensamentos de impostor não cometia mais erros diagnósticos, e era avaliado pelos próprios pacientes como mais empático.

Um mecanismo compensatório voltado ao outro

A explicação encontrada pela pesquisadora envolve um mecanismo compensatório interessante. Segundo Tewfik, pessoas com pensamentos frequentes de impostor tendem a ficar mais orientadas para o outro, mais atentas às necessidades e perspectivas alheias, o que se traduz em melhor desempenho interpessoal e em avaliações mais positivas de colegas, superiores e, no caso dos médicos, dos próprios pacientes. Isso não significa que a sensação seja positiva ou desejável. A mesma pesquisa confirma que pensamentos de impostor reduzem a autoestima de forma consistente, e a própria autora recomenda que o padrão não seja ignorado, tampouco estimulado deliberadamente por gestores como forma de melhorar o desempenho de equipe.

A raiz estrutural da autodúvida no trabalho

Parte da pesquisa recente sobre a origem do problema aponta para uma direção que também contraria a leitura mais individualizante do fenômeno, ao dar peso a condições estruturais do ambiente de trabalho: culturas organizacionais que recompensam a aparência de certeza e de visibilidade acima da aprendizagem genuína e da honestidade sobre limitações, e lideranças que raramente reconhecem as próprias dúvidas ou erros diante da equipe. Quando ninguém no topo modela vulnerabilidade, a insegurança individual fica sem espaço para ser nomeada, e se acumula em silêncio.

Quando o padrão ultrapassa o escritório

Esse padrão de autodesvalorização raramente fica restrito ao ambiente de trabalho. A mesma sensação de não merecer reconhecimento, de estar sempre a um passo de ser desmascarado ou desvalorizado, aparece com frequência também dentro de relacionamentos afetivos, na forma de dificuldade em aceitar cuidado, elogio ou reconhecimento genuíno do parceiro. Este artigo reúne o panorama geral do que a pesquisa encontrou sobre o fenômeno; o recorte específico de quem construiu carreira fora do Brasil, em que a validação do diploma e o novo idioma intensificam a autodúvida, está no artigo sobre síndrome do impostor em expatriados qualificados. Reconhecer o padrão como fenômeno estudado, com raiz tanto individual quanto estrutural, e não como prova real da própria incompetência, é o primeiro passo para trabalhá-lo. Quem vive em outro país encontra o formato de atendimento a distância descrito em terapia online para brasileiros no exterior. A Estação Terapia reúne psicólogos brasileiros preparados para esse tipo de trabalho. É possível conhecer os psicólogos disponíveis para atendimento online e entender o formato da primeira sessão.

O que a pesquisa esclarece sobre o fenômeno do impostor

Quando o fenômeno do impostor foi identificado

Em 1978, as psicólogas Pauline Rose Clance e Suzanne Imes descreveram o padrão pela primeira vez, ao observá-lo em mulheres de alto desempenho profissional e acadêmico. Batizaram de fenômeno do impostor a sensação persistente de ser uma fraude, acompanhada do medo constante de ter o suposto engano descoberto a qualquer momento.

A síndrome do impostor é um quadro raro

Está longe de ser raro. Revisão sistemática de 62 estudos, que somaram mais de catorze mil participantes, encontrou prevalência entre 9% e 82%, variação explicada pelo instrumento de medida e pelo ponto de corte adotado em cada trabalho. O fenômeno também não se restringe a um gênero específico.

Por que médicos com pensamentos de impostor recebem boa avaliação

Por um mecanismo compensatório. Quem convive com pensamentos de impostor tende a ficar mais atento às necessidades alheias, o que melhora o desempenho interpessoal. No estudo do MIT, médicos residentes que relatavam mais esses pensamentos não cometiam mais erros diagnósticos e eram avaliados pelos próprios pacientes como mais empáticos.

O padrão aparece fora do ambiente de trabalho

Com frequência. A mesma sensação de não merecer reconhecimento e de estar a um passo de ser desmascarado costuma surgir também nos relacionamentos afetivos. Ali, ela toma a forma de dificuldade em aceitar cuidado, elogio ou reconhecimento genuíno do parceiro, repetindo no campo íntimo o roteiro observado na vida profissional.

Qual o primeiro passo para lidar com a sensação de fraude

Reconhecer o padrão como fenômeno estudado, de raiz tanto individual quanto estrutural, e não como prova real de incompetência. Esse deslocamento abre espaço para nomear a insegurança em vez de acumulá-la em silêncio. Quando a autodúvida persiste e pesa sobre a autoestima, a conversa terapêutica ajuda a trabalhá-la.